ESTRYCHNINA | Uma história real de Porto Alegre que atravessou 130 anos e agora virou música
- Porto Alegre Mal Assombrada
- há 3 dias
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Em 1896, Antônio Borges Lima, o Neco, e Francisca Gama, a Chiquinha, protagonizaram uma das histórias de amor e morte mais marcantes da Porto Alegre do final do século XIX. Mais de um século depois, essa história chega à música com o lançamento de “Estrychnina”, faixa do meu álbum Apneia.
Estrychnina
A música “Estrychnina”, do álbum Apneia, nasce dessa história real. O clipe procura recriar esse episódio não como uma simples história de amor trágico, mas como uma viagem até uma Porto Alegre de 130 anos atrás, quando a cidade era outra, as relações sociais eram outras e uma tragédia como essa podia ocupar as páginas dos jornais e, no dia seguinte, transformar-se em assunto de toda a cidade.
O título mantém a grafia antiga, Estrychnina, exatamente como aparece na obra literária publicada em 1897. E é justamente essa grafia que carrega parte da história. O que começou como uma notícia sobre duas pessoas que morreram em Porto Alegre atravessou gerações e chegou até mim.
Agora eu devolvo essa história para a cidade em forma de música.
Existem histórias de Porto Alegre que parecem ter sido inventadas para um romance. Mas algumas realmente aconteceram.
Em 1896, a imprensa porto-alegrense noticiou a morte de Antônio Borges Lima, de 21 anos, e de sua amante, Chiquinha Gama. Os dois ingeriram estricnina em um pacto de morte. Segundo a notícia publicada na época, o casal havia planejado o suicídio e deixado cartas para amigos. Durante a agonia, Antônio ainda teria se arrependido e procurado socorro, pedindo que salvassem Chiquinha. Os dois morreram cerca de uma hora depois.
O episódio causou forte repercussão na cidade.
O caso não ficou apenas nas páginas dos jornais. No ano seguinte, em 1897, três jornalistas e escritores ligados ao Correio do Povo, Mário Totta, Paulino Azurenha e Souza Lobo, transformaram aquela tragédia em literatura. Nascia o romance Estrychnina, uma obra que, além de contar a história de Neco e Chiquita, retratava uma Porto Alegre em transformação no final do século XIX.
A pesquisa acadêmica sobre a obra confirma a ligação entre o romance e o caso real. Estudos também localizaram os registros de óbito de Antônio Borges Lima e Francisca da Gama no Livro de Óbitos número 20 do acervo da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre. A mesma pesquisa registra ainda anúncios publicados no Correio do Povo em setembro de 1896 anunciando a futura publicação de Estrychnina e, em junho de 1897, a divulgação do lançamento da novela.
O romance acabou se tornando um importante registro literário da cidade. A própria editora Artes & Ofícios apresenta Estrychnina como uma viagem por uma Porto Alegre que quase não existe mais, acompanhando Neco e Chiquita pelas ruas e circunstâncias do final do século XIX.
O triste evento foi noticiado na imprensa de Porto Aelgre.
Declaração de Óbito
Algumas palavras estão realmente impossíveis de determinar com segurança pela qualidade da fotografia. Prefiro marcar como [ilegível] do que completar por suposição, especialmente porque esse documento tem valor histórico para a pesquisa do caso. Esses são os atestados de óbitos do casal:
N. 1427.FranciscaGama.
Aos trez dias do mez de Setembro de mil oitocentos e noventa seis, nesta cidade de Porto Alegre e cartorio do Registro civil de nascimentos e obitos, compareceu o Senhor Dr. Pedro Manuel e exhibindo attestado do Sub-delegado Antonio Lemos declarou. Que no dia [ilegível], ás [ilegível] horas e [ilegível] da tarde, á rua Marechal, 62, n.º cento e sessenta e seis do [ilegível] Distrito municipal, falleceu de [ilegível] a Senhora Francisca Gama, filha legitima de [ilegível] e [ilegível], de côr [ilegível], natural de [ilegível], solteira, profissão [ilegível], estado solteira, com vinte e um annos de idade.
De seu consorcio deixa as seguintes filhas [ilegível].
[Trecho final ilegível na imagem.]
Aos trez dias do mez de Setembro de mil oitocentos e noventa seis, nesta cidade de Porto Alegre e cartorio do Registro civil de nascimentos e obitos, compareceu o Senhor [ilegível] e exhibindo attestado do [ilegível] declarou: Que no dia hontem, ás [ilegível] horas e [ilegível] da noite, á rua do Arvoredo (Pharmacia Firmiano) do Primeiro Distrito municipal, falleceu de [ilegível], por meio de [ilegível], o Senhor Antonio Borges Lima, filho legitimo de [ilegível] e [ilegível], de côr [ilegível], natural de [ilegível], profissão [ilegível], estado solteiro, morador á rua [ilegível], com vinte e um annos de idade.
De seu consorcio deixa as seguintes filhas [ilegível].
Eles deixaram um pedido em sua carta de despedida:
Aos pais, o suicida pedia perdão e denunciava a censura e a moral social que não admitiam o seu amor:
“Peço-vos perdão do que acabo de cometer, mas era meu destino e devia cumpri-lo, pois que um amor que não podia aparecer levou-me a este ato de desespero. Amei loucamente uma mulher e esta tinha-me tanto amor como só podia ter minha mãe por isso julguei mais acertado por termo a meus dias a ter de separar-me dela pois que a sociedade não permitia que eu aparecesse com ela sob pena de ser considerado indigno de seu seio. Sociedade infame onde existe e impera a luxúria em seu auge e que pretendeu aniquilar aquele que não possui dinheiro e que por isso não é digno de si”.⁷⁷
Na carta de despedida, pois, Antônio Borges Lima reafirmava seus motivos: a incompreensão social e a hipocrisia dos valores.
Do livro para o Café Mal Assombrado
A história de Neco e Chiquinha também ganhou uma nova forma no Café Mal Assombrado POA, onde existe um drink chamado Estrychnina, criado como uma homenagem à novela de 1897 e à história que deu origem à obra.
Hoje, essa mesma história ganha mais uma camada. Ela foi notícia em 1896. Virou literatura em 1897. Foi preservada em documentos e registros históricos. Chegou até as pesquisas sobre a memória de Porto Alegre. Virou um drink no Café Mal Assombrado POA. E agora virou uma música.
Assista ao vídeo do Canal Tumultulos
Café Mal Assombrado POA. O estabelecimento mantém o drink Estrychnina, inspirado na história de Neco e Chiquinha.
Uma história que continua sendo contada
Talvez seja justamente isso que mais me interessa nessa história. Ela atravessou o jornal, o registro civil, a literatura e agora chega à música.
A Lítera sempre teve essa relação muito forte entre música e narrativa. No álbum Caso Real, lançado em 2015, transformamos em canções a história de amor entre Dom Pedro I e Domitila de Castro, a partir das cartas trocadas entre os dois. A banda também desenvolveu projetos que levaram histórias, personagens e memórias para as ruas, como a intervenção “vc já viveu um amor impossível?”. Em Arquétipos – O Encontro com a Sombra, a pesquisa histórica e pessoal também esteve no centro do processo criativo, aproximando música, memória, literatura e investigação.
Por isso, Estrychnina não surge como uma mudança de caminho. É uma continuação. Eu sigo fazendo aquilo que sempre me interessou. Pesquisar histórias, encontrar personagens, entender o contexto e transformar tudo isso em música. Lítera. A música faz parte da continuidade de um trabalho que utiliza a canção como forma de contar histórias, personagens e acontecimentos.
Fontes e referências
TOTTA, Mário; AZURENHA, Paulino; SOUZA LOBO. Estrychnina. Porto Alegre, Livraria Americana, 1897. A obra literária foi escrita a partir do caso de Neco e Chiquinha.
PESAVENTO, Sandra Jatahy. Os sete pecados da Capital. São Paulo, Hucitec, 2008. Especialmente o capítulo “Morrer de amor: Neco, Chiquinha e a Estrhycnina”, dedicado ao caso.
MARTINI, Maria Luiza. “O poder da representação: a ficção invade a vida”. Fênix, Revista de História e Estudos Culturais, 2009. O artigo analisa o texto de Sandra Pesavento e a relação entre o acontecimento real, as cartas dos suicidas, o jornalismo e o romance Estrychnina.
Imprensa de Porto Alegre no século XIX. O Correio do Povo registrou o episódio e posteriormente publicou referências à obra Estrychnina. Essas referências são discutidas nos estudos acadêmicos sobre o caso.
Registros históricos. Os registros de óbito de Antônio Borges Lima e Francisca Gama integram a documentação histórica utilizada em pesquisas sobre o episódio encontrados pelo canal Tumultulos.



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